Espanha: Trilhando os Pirineos

Uma das melhores coisas em Montserrat, além da escalada, foi as pessoas que conheci; e uma das amizades que fiz ali foi com Juan, um escalador e “trilheiro”, se é que existe essa palavra, que me acompanhou na minha próxima aventura: Trilhar os Pirineos.

A viagem até a base de uma das montanhas durou cerca de 2 horas de carro, e eu confesso que dormi a maior parte do caminho, mas as poucas vezes que eu acordei, pude ver o quão bonito é a paisagem. A Espanha é realmente um lugar muito bonito.

Mas falemos das trilhas, o primeiro item que vale falar é que não há hoteis ou hostels no caminho, mas sim refúgios, que normalmente são uma cabana no meio da montanha aonde você pode passar a noite. Tem energia por cerca de uma hora e não tem banheiro, mas é de graça e te protege do frio. E eu ODEIO frio, então pra mim já ta mais que ótimo.

O primeiro dia de trilha a gente começou meio tarde, umas 14 horas. E a caminhada até a cabana era de 4 horas. A trilha é maravilhosa, entre árvores e pedras, mas o que me matou foi a altitude. Essa foi a primeira vez que eu estava fazendo uma trilha em uma montanha alta. E ali eu entendi o conceito de ar rarefeito. Gente, não tem ar, eu não sou uma pessoa sedentária, pratico bastante esportes, mas ali, cada passo me deixava cansada e sem fôlego. Foi um sentimento muito estranhamente ruim. E o pior, o primeiro monte nem era tão alto, o monte Mulieres tem apenas 2928 metros e a cabana nem é no topo.

Mas que seja cansativa, foi uma delicia mesmo assim, e trilha boa tem que cansar mesmo. O problema foi que começou a escurecer e a gente ainda não tinha achado a cabana, e pior, a gente não tinha certeza se estavamos no caminho certo e a gente não tinha trazido barraca ou nada pra acampar ao ar livre. Ou seja, se a gente não achasse a cabana a gente ia morrer de frio (sou dramática mesmo, mas ai eu não sei se era drama ou real). Mas então imagina, não achar a cabana não era uma opção. A gente precisava achar essa desgraça!

E assim a gente continou pelo caminho que a gente achava que estava certo. O Juan, com mais experiência e mais conhecimento da área dava umas voltas pra ver se era isso mesmo, e tudo indicava que sim, mas a ausência da cabana indicava que não. Meu est6omago cada vez mais apertado de ansiedade e nervosismo, mesmo porque nesse ponto já estava super escuro e a gente já estava usando a head lamp.

A cada curva na trilha, volta por pedra, ou esquina de árvore eu perguntava se ele conseguia ver a cabana. Não estava no meu roteiro morrer congelada em uma montanha na Espanha. Gente, sou extremamente sistemática, se não esta na minha lista do que pode, então não pode! A não ser que seja legal, ai eu abro uma excessão, pq sacomé né, a vida é feita de improvisos. Mas gente, nesse caso o improvisso seria o fim da vida, e eu, não aprovo isso. Então eu queria achar aquela maldita cabana mais do que tudo nesse mundo.

E, o tempo passando, já super escuro, eu super cansada, e nada da maldita cabana! MAL DI TA CA BA NA!!!!

Em uma parte da trilha tinhamos que contornar uma pedra enorme por um caminho sorrateiro, cair ali no escuro seria uma grande m****. Enquanto eu dava essa volta, a única coisa que passava na minha cabeça era o quanto seria horrível se a gente tivesse que voltar todo o caminho porque pegou a trilha errada, e que aquela maldita cabana nunca chegava, como eu odiava aquela cabana, como eu odiava aquela pedra, cabana miserável, pedra grande pra cacete, que cabana dos infernos, terminando de dar a volta na pedra, olha que cabana mais linda logo ali! Senhor, essa é a coisa mais linda que já vi na minha vida, eu te amo cabaninha linda da minha vida!!

Nós fizemos os morros Mulieres e Puigmal. Todos com trilhas maravilhosas, paisagens lindas, e tudo mais. A presença desses lugares é realmente inspiradora. Mas pra mim o mais especial foi uma das voltas.

Deixa eu abrir um parênteses aqui, eu sempre tive o maior respeito pela natureza. Mas sempre foi um respeito baseado em informação e beleza. Mas depois dessas trilhas, o respeito virou algo palpável e baseado em poder e em grandiosidade, tipo uma coisa linda e mortal.

Na noite anterior a trilha de volta, eu, super cansada, decidi não tirar a meia. Estava muito cansada e estava com muito frio, então eu cheguei na cabana, jantei e dormi. O plano para o dia seguinte era simples: acordar, subir até o cume da montanha, voltar, pegar nossas mochilas e descer a montanha até o estacionamento.

A subida até o cume de manhã foi maravilhosa, e eu já estava mais acostumada com o ar, e também que pela manhã o ar é tão fresco que é revigorante. Claro, não me superestime eu ainda era o elo mais fraco do grupo, mas pelo menos eu estava acompanhando o ritmo. Mas o negócio ficou complicado mesmo foi na descida. Eramos em 3 nessa parte, e eu era a ultima da “fila”

Veja bem, quando era mais nova eu machuquei meus joelhos no Judô, mas com muuuuita fisioterapia meu médico disse que eu estaria bem, desde que fizesse academia pro resto da minha vida. Isso não era um problema quando estava no Brasil, com minha rotina diária na academia. Mas viajando ficou difícil, e eu comecei a sentir todo o regresso do meu joelho naquela descida.

Senhor, cada passo é uma dor. Meus joelhos estão doendo de mais! Mas fica pior, depois de um tempo eu percebo que tem algo aqui doendo mais do que meus joelhos: Meus pés, parece que eu estou pisando em lixa. Meu pé dói tanto, meus dedões parecem que vão explodir.

Gente, eu to tão cansada. Não sei se aguento mais.

Os meninos viram pra traz e olhem pra mim:
Eu sorrio, e comento como a paisagem é linda e que ta tudo bem.

Continuamos.

Meu deus eu acho que eu vou morrer!! Eu não aguento mais, sério! Meus joelhos estão doendo muito, meu pés ja não querem tocar o chão!!
Ok, ok, ok. Caminhemos até aquela rocha, depois daquela rocha a gente senta. Chegando na rocha, ok, eu consigo chegar até aquela arvore, até aquela parte do rio, até aquele outro riacho e assim eu continuo.

E sempre que os meninos viram, eu sorrio e digo que to bem.

Eu não vou ser a mole que pede pra parar, mas meu Deus como eu queria parar. Queria parar mais do que tudo.
Enquanto eu continuava, eu cantava na minha cabeça a música do Nemo: continue a nadar, continue a andar. Só mais um passo. Um passo depois do outro. Só isso, só mais um passo. Mais. Um. Passo.

Mas cada passo era uma tortura, eu queria chorar, eu queria sentar, eu queria tanto parar. Mas e ai? Vou chegar aqui e desistir na linha de chegada? Não. Eu não podia.
Porque raios eu to fazendo isso? Poderia estar no conforto de um hotel, dormindo em uma cama, com os pés na areia. Eu nunca mais vou fazer isso na minha vida. Eu odeio trilha, eu odeio essa montanha.

Quando estavamos finalmente chegando, os meninos resolvem fazer uma parada. Eles não entendem, eu não posso parar agora, se eu parar eu paro pra sempre. Eu preciso terminar isso agora, porque eu já me acostumei com a dor, se ela der qualquer melhorada a hora que eu voltar a andar eu não sei se vou conseguir me acostumar de novo.

Então eu continuei, não que tenha feito muita diferença, em menos de 5 minutos eles já me encontraram e me ultrapassaram. hahaha

Mas finalmente, eu cheguei no carro. Acho que foi o sentimento de alivio mais real que eu ja senti em toda a minha vida.

A primeira coisa que fiz foi tirar o tenis, e depois tentar tirar a meia. Mas não foi assim tão simples, a meia não queria sair, tava colada na pele do meu pé com tanto pus de bolha e sangue seco. Senhor, como isso dói. Joguei água pra sair mais facil. Mas mesmo assim, a sola do meu pé, que ai já era uma crosta de pus e sangue, saiu junto com a meia.

Olho prás montanhas da porta do carro.

Primeiramente eu não sei o que é que estou sentindo. Mas aos poucos eu entendo. É um sentimento de respeito, é um medo do poder que elas tem. E não é só isso, estranhamente, eu sinto amor.

Amor por essas montanhas. Pela sabedoria de que viver ali exige força. Que pra chegar lá não é de graça. Que ali, a beleza é só um detalhe. O poder, o sacrifício pra chegar e andar por aquele lugar é o que as tornam tão especial.

E esse amor pelas montanhas me incluem, afinal, eu fiz, eu terminei a trilha, eu consegui. Eu fui até o topo e voltei, eu andei por ali, e dali, eu sai mais forte, sabendo que eu consigo. Aquelas montanhas me deram isso.


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